In Memoriam
15/07/10
Lembro quando ainda muito criança, ingênuo, sentado à mesa em mogno com sua toalha xadrez branca e vermelha do café da manhã – entre o espaço da manteiga ao pão – sonhava o pequeno menino aspirante à astronauta.
Do seu lado aquela mulher, vigorosa dona-de-casa, ao fogão cor de terra-seca aquecia a leiteira que espumava como bolhas de sabão e pelas bordas se derramava. Também assoprava cuidadosamente a caneca afim de esfriar o que antes fora muito quente. E com as mãos calejadas pelo tempo cortava-lhe precisamente, após tantos anos de prática, todos os dias o mesmo tamanho de pedaço de bolo de cenoura com cobertura açucarada. Ao término sempre sorria-lhe afavelmente, com a aparência ainda sobrecarregada das longas noites em claro em sua frágil presença.
E mesmo depois que o passado a muito roubou tão dolorosamente o que ao presente e futuro pertencia. Agora em gratidão, já menino crescido, não me esqueço de sempre retribuir-lhe com sorrisos repletos de saudades, momentos como este para sempre inesquecíveis.
Sentiência
14/07/10
Na vida cada dia uma ida, da rua ao cruzamento mitiga ao pedinte a mesma mão que o acaricia, pois o que já foi dá-se a este o nome ao boi.
Samba malandro
30/06/10
Como bom brasileiro, não desisto nunca, requebro na raiz o samba. Malandro do dia-a-dia, visto minha máscara e também a fantasia.
Parecia evidente
28/06/10
Penso nela como o dia o amanhã, da têmpora queima a febre estes desejos à agonia, com a certeza que a amaria salvo-guardo as exceções.
Admiro-a no vazio do olhar sujeito a perdição, d’alma os grilhões deste não-amor, a ânsia de ser e não poder estar.
Angustia que vivifica a dor e alimenta da esperança o abandono ao que a ela sobremaneira já pertence.
Meu Sol!
31/10/09
Minha vida é uma evidência anedótica, uma falha lógica cheia de indicações casuais. Descrita por observadores – diria Freud – através de chistes tendenciosos. Sou uma ironia para os bárbaros que transgridem amoral e violentamente o verdadeiro significado do cinismo. E que como Diógenes, apenas desejo que estas pessoas se afastem do meu Sol.
Do mito ao tabu
28/03/07
Solidão que se faz necessária em diversos momentos. Já se passaram alguns anos, talvez alguns meses, ou até mesmo alguns dias em sua companhia. Os sentimentos já não a distinguem mais como outrora, sensações recalcadas de conformismo itinerante ou uma aptidão excedida em eventualidades passadas. O tempo não pára, pelo contrário, perante exigências e necessidades das situações se demonstra eficaz e valoroso em seus subterfúgios.
Lembranças se chocam com a realidade, como ondas de rejeições ao tempestuoso mar. Sonhos desvanecem, dissipam, e evaporam sob a luz da razão. Este raciocínio conduz à indução lógica visando à determinação do que é verdadeiro ou não, faz perecer a alma compassiva em tempos remotos, desmistificando-a sob as frias imparcialidades do entendimento.
A vida sofre suas mutações, os olhares se alteram e os sorrisos se resguardam receosos. O coração passa a marcar os mesmos compassos, silenciosos e fatigados. O amor torna-se um mito, um tabu inquestionável pela cadência da rotina conservadora. E o costume dita a maneira usual de fazer ou de agir rumo ao desconhecido.
Fragmentos
27/02/07
Uma biogafia, um biografema, uma história, uma estória, um conto, uma lenda, uma ilusão, uma fantasia ou uma vida. Em que momento a realidade deixou de existir, e os fragmentos pela a qual escapa magistralmente, os sonhos tomaram todo o seu lugar?
Entre alegrias e tristezas, sorrisos e lágrimas, afetos e desencantos, estas restrições com limites sobre-humanos. Barreiras de sanidade que acorrentam loucuras e sobrepujam à alma, natureza inverossímil apta a exasperar fortes desesperos e mitigar boas virtudes ao espírito. Show de espetáculos sem platéia fiel, peça teatral sem grande final, um artista preso a própria representação em meio ao infinito quebra-cabeças de fatos que transformam-se em ficções.
Sonhos que almejam uma nova realidade ainda surreal, ou pelo menos um rascunho de sua utopia, quimera entre diversos desejos que se perderam no passado de doces ilusões. Pensamentos nocivos, intimamente acalentados e que buscam insessantemente idealizações, excelências ou perfeições dentro de um ciclo vicioso, doentil e solitário de um eterno querer se realizar.
Construção
15/02/07
Neste grande e incompleto quebra-cabeça de emoções, os sentimentos são as peças ainda em construção, e o sentir é perceber todo este processo. Onde cada um deve moldar o seu próprio, indiferente de interferências. Pois mais bela é a obra autoral do que seu plágio.
O vazio
17/10/06
Martiriza-me o vazio, tão distante e frio é este olhar perdido em meio a multidão, a solidão tornou-se embriagante. Um sonhador que destruiu seus sonhos, abandonou o coração em alguma sarjeta qualquer de sua imaginação, e deixou migalhas d´alma como resquícios e indícios de uma história de amor. Pois se novamente estiver preparado para amar, estas migalhas haverão de levar-me a um coração transformado.
Crucifixo sobre altar
16/08/06
Vejo que há flores lançadas ao chão neste acanhado local de comícios com prerrogativas religiosas. Sob os pés fatigados dAquele ao alto pelo qual o estipêndio de uma promessa trilham caminhos de vidas, o altar se irradia causando uma falsa expectativa de presença sobre-humana.
O ícone do paraíso impraticável, um pensamento efêmero sublinha minha imaginação e, se choca com o medo do inferno casual. Neste momento a razão subjuga a fé, pois nunca testificarei um compromisso com quem mutuamente ignoro a presença.
Tortura
04/08/06
Esta solidão não impõe limites em perseguir como outrora,
ouço ao longe um lamento de coração ainda cedo torturado,
prantos de um amor de cristal estilhaçado ao inócuo chão.
…
02/08/06
Inacessível, inadaptável, inadequado, incógnito, incompatível, incompreensível, indemonstrável, inderteminado, indisponível, indomável, inesperado, inexato.
Devaneio
28/07/06
Divago, não existo, mas tudo quero. Vida sem rumo, destino incerto, largado por aí, vivendo boemia. Baco em noites paulistanas, pensamentos inusitados, desejos não ortodoxos, eterno fanfarrão. Entre Augusta, doce cortesã, e a Roosevelt. Vejo fantasmas, dançarinos, piratas, barmans. Vivencio espetáculos, mergulho entre livros, ouço boa música, diversas batidas, muitas bebidas, nenhum pé ao chão.
