In Memoriam

Lembro quando ainda muito criança, ingênuo, sentado à mesa em mogno com sua toalha xadrez branca e vermelha do café da manhã – entre o espaço da manteiga ao pão – sonhava o pequeno menino aspirante à astronauta.

Do seu lado aquela mulher, vigorosa dona-de-casa, ao fogão cor de terra-seca aquecia a leiteira que espumava como bolhas de sabão e pelas bordas se derramava. Também assoprava cuidadosamente a caneca afim de esfriar o que antes fora muito quente. E com as mãos calejadas pelo tempo cortava-lhe precisamente, após tantos anos de prática, todos os dias o mesmo tamanho de pedaço de bolo de cenoura com cobertura açucarada. Ao término sempre sorria-lhe afavelmente, com a aparência ainda sobrecarregada das longas noites em claro em sua frágil presença.

E mesmo depois que o passado a muito roubou tão dolorosamente o que ao presente e futuro pertencia. Agora em gratidão, já menino crescido, não me esqueço de sempre retribuir-lhe com sorrisos repletos de saudades, momentos como este para sempre inesquecíveis.

Sentiência

Na vida cada dia uma ida, da rua ao cruzamento mitiga ao pedinte a mesma mão que o acaricia, pois o que já foi dá-se a este o nome ao boi.

Samba malandro

Como bom brasileiro, não desisto nunca, requebro na raiz o samba. Malandro do dia-a-dia, visto minha máscara e também a fantasia.

Do mito ao tabu

Solidão que se faz necessária em diversos momentos. Já se passaram alguns anos, talvez alguns meses, ou até mesmo alguns dias em sua companhia. Os sentimentos já não a distinguem mais como outrora, sensações recalcadas de conformismo itinerante ou uma aptidão excedida em eventualidades passadas. O tempo não pára, pelo contrário, perante exigências e necessidades das situações se demonstra eficaz e valoroso em seus subterfúgios.

Lembranças se chocam com a realidade, como ondas de rejeições ao tempestuoso mar. Sonhos desvanecem, dissipam, e evaporam sob a luz da razão. Este raciocínio conduz à indução lógica visando à determinação do que é verdadeiro ou não, faz perecer a alma compassiva em tempos remotos, desmistificando-a sob as frias imparcialidades do entendimento.

A vida sofre suas mutações, os olhares se alteram e os sorrisos se resguardam receosos. O coração passa a marcar os mesmos compassos, silenciosos e fatigados. O amor torna-se um mito, um tabu inquestionável pela cadência da rotina conservadora. E o costume dita a maneira usual de fazer ou de agir rumo ao desconhecido.

Fragmentos

Uma biogafia, um biografema, uma história, uma estória, um conto, uma lenda, uma ilusão, uma fantasia ou uma vida. Em que momento a realidade deixou de existir, e os fragmentos pela a qual escapa magistralmente, os sonhos tomaram todo o seu lugar?

Entre alegrias e tristezas, sorrisos e lágrimas, afetos e desencantos, estas restrições com limites sobre-humanos. Barreiras de sanidade que acorrentam loucuras e sobrepujam à alma, natureza inverossímil apta a exasperar fortes desesperos e mitigar boas virtudes ao espírito. Show de espetáculos sem platéia fiel, peça teatral sem grande final, um artista preso a própria representação em meio ao infinito quebra-cabeças de fatos que transformam-se em ficções.

Sonhos que almejam uma nova realidade ainda surreal, ou pelo menos um rascunho de sua utopia, quimera entre diversos desejos que se perderam no passado de doces ilusões. Pensamentos nocivos, intimamente acalentados e que buscam insessantemente idealizações, excelências ou perfeições dentro de um ciclo vicioso, doentil e solitário de um eterno querer se realizar.

Construção

Neste grande e incompleto quebra-cabeça de emoções, os sentimentos são as peças ainda em construção, e o sentir é perceber todo este processo. Onde cada um deve moldar o seu próprio, indiferente de interferências. Pois mais bela é a obra autoral do que seu plágio.

O vazio

Martiriza-me o vazio, tão distante e frio é este olhar perdido em meio a multidão, a solidão tornou-se embriagante. Um sonhador que destruiu seus sonhos, abandonou o coração em alguma sarjeta qualquer de sua imaginação, e deixou migalhas d´alma como resquícios e indícios de uma história de amor. Pois se novamente estiver preparado para amar, estas migalhas haverão de levar-me a um coração transformado.

Crucifixo sobre altar

Vejo que há flores lançadas ao chão neste acanhado local de comícios com prerrogativas religiosas. Sob os pés fatigados dAquele ao alto pelo qual o estipêndio de uma promessa trilham caminhos de vidas, o altar se irradia causando uma falsa expectativa de presença sobre-humana.

O ícone do paraíso impraticável, um pensamento efêmero sublinha minha imaginação e, se choca com o medo do inferno casual. Neste momento a razão subjuga a fé, pois nunca testificarei um compromisso com quem mutuamente ignoro a presença.

Aos corvos

Coração aos corvos, alguém há de querer as migalhas deste amor.

Tortura

Esta solidão não impõe limites em perseguir como outrora,
ouço ao longe um lamento de coração ainda cedo torturado,
prantos de um amor de cristal estilhaçado ao inócuo chão.

Tarot

Seven of Swords in the Body

Knight of Cups in the Mind

Five of Coins in the Spirit

Inacessível, inadaptável, inadequado, incógnito, incompatível, incompreensível, indemonstrável, inderteminado, indisponível, indomável, inesperado, inexato.

Devaneio

Divago, não existo, mas tudo quero. Vida sem rumo, destino incerto, largado por aí, vivendo boemia. Baco em noites paulistanas, pensamentos inusitados, desejos não ortodoxos, eterno fanfarrão. Entre Augusta, doce cortesã, e a Roosevelt. Vejo fantasmas, dançarinos, piratas, barmans. Vivencio espetáculos, mergulho entre livros, ouço boa música, diversas batidas, muitas bebidas, nenhum pé ao chão.