Surdez
02/11/10
A Dor grita excruciante em meio ao silêncio absoluto, do outro lado do véu apenas a Solidão, apática, esta não escuta os ecos da sua agonia.
Dicroísmo
01/11/10
Ela nasceu frágil, menininha de interior para casar, desde criança aprendeu o tricô e a cozinhar. Viveu sua infância através dos sonhos de seus ausentes pais, ainda pequena e indefesa, no quintal de casa construiu o seu primeiro castelo de areia e descobriu – desamparada – que com a chuva, ele desmoronava. E brincou de bonecas até muito tarde, as ganhou como sua própria cópia, uma mensagem indireta para aprender desde cedo a cuidar-se sozinha.
Ao passar de alguns anos – crescida – olhou-se ao espelho, e em meio ao desespero admirou a beleza que irradiava de muitas maneiras. Ela banhara-se através da tristeza de suas lágrimas e transformara-se em uma linda bonequinha de cristal, foi disso que aprendera a cuidar a vida inteira. E adquiriu uma arguta confiança, agora era a vez de tratar de você mesma.
As dificuldades e ocasiões a tornaram extremamente inteligente, não dependeria de mais nada para sobreviver. Mudou-se para a cidade grande e maravilhou-se assustadoramente entre os arranha-céus. Esta monstruosa miragem a iludiu, não aprendeu a tempo que em cidade grande o que importa é a esperteza, uma ardil astúcia que supera qualquer inteligência, e sua ingenuidade de menininha de interior perante tudo isso a traiu. Se ofuscando em seu próprio brilho, ela ergueu todos os seus sonhos como castelos de areia. Agora a chuva voltou…
Déjà vécu
31/10/10
Inconscientemente insisto em reviver uma experiência passada que antes parecia-me completamente impossível.
Reciprocidade
04/10/10
Atualmente, eu aprendo com meus erros de forma custosa e árdua, a obliterar um pouco do meu orgulho vaidoso e arredio. Confronto pesarosamente nas paredes dos olhos daquela que me admira, o reflexo de uma reprodução atenuada dos erros que cometo. Onde a pior dor neste breve intervalo não é de forma alguma subjugar a este orgulho, mas ao me afastar por sua causa, perder aos poucos a quem amo.
Por isso, permito-me amá-la um pouco mais a cada dia, de modos diferentes e casuais através de todos os nossos momentos. E assim, compartilhar o que antes apenas me pertencia da maneira mais egoísta, meus sentimentos.
Pundonor
30/09/10
Não há mais palavras que me aprisionarão. As pessoas muitas vezes não me conhecem, mas também não fazem a mínima questão. Acreditam piamente que a sua liberdade é a livre expressão, onde vivem seus pontos de vista mesquinhos – imaturos – não dando o devido valor as experiências que adquirem. Fazem do medo sua fortaleza e erguem suas inseguranças como lanças à guerra iminente. Corroem como ácido minha boa vontade, minam minhas condutas e debocham das minhas virtudes. Cobram das minhas atitudes uma reciprocidade a qual não compartilham com ninguém, nem elas mesmas.
Doar-me-ei por inteiro a quem se doar. Uma premissa sem a barreira das palavras tão almejadas que nunca fizeram jus aos meus verdadeiros sentimentos. Que a partir de agora, apenas sejam necessários compartilhar o olhar e o sentir, que isso basta para mutuamente nos compreendermos.
In Memoriam
15/07/10
Lembro quando ainda muito criança, ingênuo, sentado à mesa em mogno com sua toalha xadrez branca e vermelha do café da manhã – entre o espaço da manteiga ao pão – sonhava o pequeno menino aspirante à astronauta.
Do seu lado aquela mulher, vigorosa dona-de-casa, ao fogão cor de terra-seca aquecia a leiteira que espumava como bolhas de sabão e pelas bordas se derramava. Também assoprava cuidadosamente a caneca afim de esfriar o que antes fora muito quente. E com as mãos calejadas pelo tempo cortava-lhe precisamente, após tantos anos de prática, todos os dias o mesmo tamanho de pedaço de bolo de cenoura com cobertura açucarada. Ao término sempre sorria-lhe afavelmente, com a aparência ainda sobrecarregada das longas noites em claro em sua frágil presença.
E mesmo depois que o passado a muito roubou tão dolorosamente o que ao presente e futuro pertencia. Agora em gratidão, já menino crescido, não me esqueço de sempre retribuir-lhe com sorrisos repletos de saudades, momentos como este para sempre inesquecíveis.
Sentiência
14/07/10
Na vida cada dia uma ida, da rua ao cruzamento mitiga ao pedinte a mesma mão que o acaricia, pois o que já foi dá-se a este o nome ao boi.
Samba malandro
30/06/10
Como bom brasileiro, não desisto nunca, requebro na raiz o samba. Malandro do dia-a-dia, visto minha máscara e também a fantasia.
Parecia evidente
28/06/10
Penso nela como o dia o amanhã, da têmpora queima a febre estes desejos à agonia, com a certeza que a amaria salvo-guardo as exceções.
Admiro-a no vazio do olhar sujeito a perdição, d’alma os grilhões deste não-amor, a ânsia de ser e não poder estar.
Angustia que vivifica a dor e alimenta da esperança o abandono ao que a ela sobremaneira já pertence.
Meu Sol!
31/10/09
Minha vida é uma evidência anedótica, uma falha lógica cheia de indicações casuais. Descrita por observadores – diria Freud – através de chistes tendenciosos. Sou uma ironia para os bárbaros que transgridem amoral e violentamente o verdadeiro significado do cinismo. E que como Diógenes, apenas desejo que estas pessoas se afastem do meu Sol.
Do mito ao tabu
28/03/07
Solidão que se faz necessária em diversos momentos. Já se passaram alguns anos, talvez alguns meses, ou até mesmo alguns dias em sua companhia. Os sentimentos já não a distinguem mais como outrora, sensações recalcadas de conformismo itinerante ou uma aptidão excedida em eventualidades passadas. O tempo não pára, pelo contrário, perante exigências e necessidades das situações se demonstra eficaz e valoroso em seus subterfúgios.
Lembranças se chocam com a realidade, como ondas de rejeições ao tempestuoso mar. Sonhos desvanecem, dissipam, e evaporam sob a luz da razão. Este raciocínio conduz à indução lógica visando à determinação do que é verdadeiro ou não, faz perecer a alma compassiva em tempos remotos, desmistificando-a sob as frias imparcialidades do entendimento.
A vida sofre suas mutações, os olhares se alteram e os sorrisos se resguardam receosos. O coração passa a marcar os mesmos compassos, silenciosos e fatigados. O amor torna-se um mito, um tabu inquestionável pela cadência da rotina conservadora. E o costume dita a maneira usual de fazer ou de agir rumo ao desconhecido.
Fragmentos
27/02/07
Uma biogafia, um biografema, uma história, uma estória, um conto, uma lenda, uma ilusão, uma fantasia ou uma vida. Em que momento a realidade deixou de existir, e os fragmentos pela a qual escapa magistralmente, os sonhos tomaram todo o seu lugar?
Entre alegrias e tristezas, sorrisos e lágrimas, afetos e desencantos, estas restrições com limites sobre-humanos. Barreiras de sanidade que acorrentam loucuras e sobrepujam à alma, natureza inverossímil apta a exasperar fortes desesperos e mitigar boas virtudes ao espírito. Show de espetáculos sem platéia fiel, peça teatral sem grande final, um artista preso a própria representação em meio ao infinito quebra-cabeças de fatos que transformam-se em ficções.
Sonhos que almejam uma nova realidade ainda surreal, ou pelo menos um rascunho de sua utopia, quimera entre diversos desejos que se perderam no passado de doces ilusões. Pensamentos nocivos, intimamente acalentados e que buscam insessantemente idealizações, excelências ou perfeições dentro de um ciclo vicioso, doentil e solitário de um eterno querer se realizar.
Construção
15/02/07
Neste grande e incompleto quebra-cabeça de emoções, os sentimentos são as peças ainda em construção, e o sentir é perceber todo este processo. Onde cada um deve moldar o seu próprio, indiferente de interferências. Pois mais bela é a obra autoral do que seu plágio.
