Eu sou Solidão.

Surdez

A Dor grita excruciante em meio ao silêncio absoluto, do outro lado do véu apenas a Solidão, apática, esta não escuta os ecos da sua agonia.

Dicroísmo

Ela nasceu frágil, menininha de interior para casar, desde criança aprendeu o tricô e a cozinhar. Viveu sua infância através dos sonhos de seus ausentes pais, ainda pequena e indefesa, no quintal de casa construiu o seu primeiro castelo de areia e descobriu – desamparada – que com a chuva, ele desmoronava. E brincou de bonecas até muito tarde, as ganhou como sua própria cópia, uma mensagem indireta para aprender desde cedo a cuidar-se sozinha.

Ao passar de alguns anos – crescida – olhou-se ao espelho, e em meio ao desespero admirou a beleza que irradiava de muitas maneiras. Ela banhara-se através da tristeza de suas lágrimas e transformara-se em uma linda bonequinha de cristal, foi disso que aprendera a cuidar a vida inteira. E adquiriu uma arguta confiança, agora era a vez de tratar de você mesma.

As dificuldades e ocasiões a tornaram extremamente inteligente, não dependeria de mais nada para sobreviver. Mudou-se para a cidade grande e maravilhou-se assustadoramente entre os arranha-céus. Esta monstruosa miragem a iludiu, não aprendeu a tempo que em cidade grande o que importa é a esperteza, uma ardil astúcia que supera qualquer inteligência, e sua ingenuidade de menininha de interior perante tudo isso a traiu. Se ofuscando em seu próprio brilho, ela ergueu todos os seus sonhos como castelos de areia. Agora a chuva voltou…

Déjà vécu

Inconscientemente insisto em reviver uma experiência passada que antes parecia-me completamente impossível.

Reciprocidade

Atualmente, eu aprendo com meus erros de forma custosa e árdua, a obliterar um pouco do meu orgulho vaidoso e arredio. Confronto pesarosamente nas paredes dos olhos daquela que me admira, o reflexo de uma reprodução atenuada dos erros que cometo. Onde a pior dor neste breve intervalo não é de forma alguma subjugar a este orgulho, mas ao me afastar por sua causa, perder aos poucos a quem amo.

Por isso, permito-me amá-la um pouco mais a cada dia, de modos diferentes e casuais através de todos os nossos momentos. E assim, compartilhar o que antes apenas me pertencia da maneira mais egoísta, meus sentimentos.

Pundonor

Não há mais palavras que me aprisionarão. As pessoas muitas vezes não me conhecem, mas também não fazem a mínima questão. Acreditam piamente que a sua liberdade é a livre expressão, onde vivem seus pontos de vista mesquinhos – imaturos – não dando o devido valor as experiências que adquirem. Fazem do medo sua fortaleza e erguem suas inseguranças como lanças à guerra iminente. Corroem como ácido minha boa vontade, minam minhas condutas e debocham das minhas virtudes. Cobram das minhas atitudes uma reciprocidade a qual não compartilham com ninguém, nem elas mesmas.

Doar-me-ei por inteiro a quem se doar. Uma premissa sem a barreira das palavras tão almejadas que nunca fizeram jus aos meus verdadeiros sentimentos. Que a partir de agora, apenas sejam necessários compartilhar o olhar e o sentir, que isso basta para mutuamente nos compreendermos.

Sentiência

Na vida cada dia uma ida, da rua ao cruzamento mitiga ao pedinte a mesma mão que o acaricia, pois o que já foi dá-se a este o nome ao boi.

Do mito ao tabu

Solidão que se faz necessária em diversos momentos. Já se passaram alguns anos, talvez alguns meses, ou até mesmo alguns dias em sua companhia. Os sentimentos já não a distinguem mais como outrora, sensações recalcadas de conformismo itinerante ou uma aptidão excedida em eventualidades passadas. O tempo não pára, pelo contrário, perante exigências e necessidades das situações se demonstra eficaz e valoroso em seus subterfúgios.

Lembranças se chocam com a realidade, como ondas de rejeições ao tempestuoso mar. Sonhos desvanecem, dissipam, e evaporam sob a luz da razão. Este raciocínio conduz à indução lógica visando à determinação do que é verdadeiro ou não, faz perecer a alma compassiva em tempos remotos, desmistificando-a sob as frias imparcialidades do entendimento.

A vida sofre suas mutações, os olhares se alteram e os sorrisos se resguardam receosos. O coração passa a marcar os mesmos compassos, silenciosos e fatigados. O amor torna-se um mito, um tabu inquestionável pela cadência da rotina conservadora. E o costume dita a maneira usual de fazer ou de agir rumo ao desconhecido.

Fragmentos

Uma biogafia, um biografema, uma história, uma estória, um conto, uma lenda, uma ilusão, uma fantasia ou uma vida. Em que momento a realidade deixou de existir, e os fragmentos pela a qual escapa magistralmente, os sonhos tomaram todo o seu lugar?

Entre alegrias e tristezas, sorrisos e lágrimas, afetos e desencantos, estas restrições com limites sobre-humanos. Barreiras de sanidade que acorrentam loucuras e sobrepujam à alma, natureza inverossímil apta a exasperar fortes desesperos e mitigar boas virtudes ao espírito. Show de espetáculos sem platéia fiel, peça teatral sem grande final, um artista preso a própria representação em meio ao infinito quebra-cabeças de fatos que transformam-se em ficções.

Sonhos que almejam uma nova realidade ainda surreal, ou pelo menos um rascunho de sua utopia, quimera entre diversos desejos que se perderam no passado de doces ilusões. Pensamentos nocivos, intimamente acalentados e que buscam insessantemente idealizações, excelências ou perfeições dentro de um ciclo vicioso, doentil e solitário de um eterno querer se realizar.

Construção

Neste grande e incompleto quebra-cabeça de emoções, os sentimentos são as peças ainda em construção, e o sentir é perceber todo este processo. Onde cada um deve moldar o seu próprio, indiferente de interferências. Pois mais bela é a obra autoral do que seu plágio.