Dicroísmo

Ela nasceu frágil, menininha de interior para casar, desde criança aprendeu o tricô e a cozinhar. Viveu sua infância através dos sonhos de seus ausentes pais, ainda pequena e indefesa, no quintal de casa construiu o seu primeiro castelo de areia e descobriu – desamparada – que com a chuva, ele desmoronava. E brincou de bonecas até muito tarde, as ganhou como sua própria cópia, uma mensagem indireta para aprender desde cedo a cuidar-se sozinha.

Ao passar de alguns anos – crescida – olhou-se ao espelho, e em meio ao desespero admirou a beleza que irradiava de muitas maneiras. Ela banhara-se através da tristeza de suas lágrimas e transformara-se em uma linda bonequinha de cristal, foi disso que aprendera a cuidar a vida inteira. E adquiriu uma arguta confiança, agora era a vez de tratar de você mesma.

As dificuldades e ocasiões a tornaram extremamente inteligente, não dependeria de mais nada para sobreviver. Mudou-se para a cidade grande e maravilhou-se assustadoramente entre os arranha-céus. Esta monstruosa miragem a iludiu, não aprendeu a tempo que em cidade grande o que importa é a esperteza, uma ardil astúcia que supera qualquer inteligência, e sua ingenuidade de menininha de interior perante tudo isso a traiu. Se ofuscando em seu próprio brilho, ela ergueu todos os seus sonhos como castelos de areia. Agora a chuva voltou…