In Memoriam

Lembro quando ainda muito criança, ingênuo, sentado à mesa em mogno com sua toalha xadrez branca e vermelha do café da manhã – entre o espaço da manteiga ao pão – sonhava o pequeno menino aspirante à astronauta.

Do seu lado aquela mulher, vigorosa dona-de-casa, ao fogão cor de terra-seca aquecia a leiteira que espumava como bolhas de sabão e pelas bordas se derramava. Também assoprava cuidadosamente a caneca afim de esfriar o que antes fora muito quente. E com as mãos calejadas pelo tempo cortava-lhe precisamente, após tantos anos de prática, todos os dias o mesmo tamanho de pedaço de bolo de cenoura com cobertura açucarada. Ao término sempre sorria-lhe afavelmente, com a aparência ainda sobrecarregada das longas noites em claro em sua frágil presença.

E mesmo depois que o passado a muito roubou tão dolorosamente o que ao presente e futuro pertencia. Agora em gratidão, já menino crescido, não me esqueço de sempre retribuir-lhe com sorrisos repletos de saudades, momentos como este para sempre inesquecíveis.